Depressão: a doença do final dos tempos
COMPORTAMENTO - Um ambiente desfavorável pode levar à depressão
Luiz Cláudio Araújo
Luiz Cláudio Araújo
Fiquei chocado, ao falar com a atendente de uma determinada empresa de telefonia, quando disquei para solicitar um suporte técnico. Do outro lado da linha, uma moça, com uma boa dicção, muito educada, prestativa, solicitava meus dados pessoais, com o fim de solucionar meu problema.
Junto à voz da moça, do outro lado, havia um enorme barulho. Parecia que milhares de pessoas estavam falando ao mesmo tempo, como se se tivesse instalado naquele lugar uma caixa de abelhas. Brinquei com a moça: que barulheira! Como você consegue trabalhar em um ambiente como esse, com todo esse barulho? Ao que ela me respondeu, com um leve sorriso: ¨Empresa grande é assim mesmo¨.
Já está provado, pela ciência que estuda os comportamentos, que um animal, quando colocado em situações de estresse, com estímulos que o agridem sucessivamente, vai, com o tempo, diminuindo sua resposta aos estímulos. Chega um momento em que esse animal se acanha e aceita passivamente as agressões, não reagindo mais.
Com o ser humano, por se acostumar a viver em um ambiente desfavorável, os efeitos e sintomas de uma pressão permanente podem produzir nele uma sensação de acomodação, de dormência emocional. É como se passássemos a considerar aquele ambiente apenas como inóspito. Tendemos a uma reação depressiva cada vez mais presente, ou mesmo de chegar a uma depressão instalada.
Esse modelo acima citado é, na verdade, um lugar que o indivíduo se sente incapacitado de mudar, assim como seus resultados, seja numa esfera menor ou maior. Ainda que seja nocivo, ele não reage, toma uma postura passiva, como se estivesse vendo, atônito, seus projetos e sonhos se desfazerem.
O modelo ou estilo de vida que levamos, de extrema correria, vai com certeza nos debilitando. Não podemos ser ingênuos de pensar que não sofreremos conseqüências de nossas ações. Elas vão se fazer presentes e, na maioria dos casos, de forma nociva.
Como no campo físico, temos a destruição da camada de ozônio, o degelo dos pólos, as imprevisíveis chegadas de maremotos, tufões, tempestades, secas etc. Assim, nós também vamos colher frutos amargos no campo psíquico se não repensarmos nossa conduta.
Digo ainda que não é apenas no campo psíquico. Pesquisas têm mostrado que mulheres estão enfartando quase na mesma proporção que os homens, por causa da mudança de comportamento que adquiriram nos últimos anos. Uma depressão normalmente surge como resposta a grandes mudanças. Ela não surgiu agora, não é uma doença descoberta agora. Vem de séculos atrás. No entanto, tornou-se uma epidemia nos últimos anos, precisamente nas duas ultimas décadas.
A novidade hoje é que atinge, assim como a globalização, todo o mundo. Não existem mais barreiras para ela, todos são afetados implacavelmente. Já é a quarta doença desde 1990 e, pelas projeções, deve ser a doença de número um até 2020. Falta pouco!
Aprender a lidar com as questões vitais, como trabalho, relacionamento social e lazer, é um desafio e tanto. Não podemos sucumbir a um modelo que não traz respostas para uma pergunta: onde está a qualidade de vida? Não é uma tarefa simples sair ileso desta parafernália existencial, demanda reflexões, mudanças progressivas de valores e uma tomada de consciência profunda da existência, sobre tudo do que é qualidade de vida.
Não é saudável chegar ao longo da estrada e descobrir que se trilhou um caminho espinhoso, alcançando o fim com marcas profundas que não trazem boas lembranças. Que tal observar bem as placas de orientação? Um grande abraço!* Luiz Cláudio Araújo é psicólogo clínico e consultor em RH e escreve às sextas-feiras nesta página.
Fonte: Diário da Tarde 06/10/2006
Fonte: Diário da Tarde 06/10/2006

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