Wednesday, November 15, 2006

Boletim da iniqüidade: máfias estedem seus tentáculos na Europa

Máfias estedem seus tentáculos na Europa
Gilles Lapouge
Tony Gentile/Reuters
Policiais guardam rua de Nápoles, depois de uma série de assassinatos
Paris – Em 10 dias, na cidade de Nápoles, que tem 3 milhões de habitantes, ocorreram 13 assassinatos, alguns em plena luz do dia . Os crimes são atribuídos à Camorra, variedade napolitana da máfia siciliana. Centenas de Carabinieri (policiais) foram mobilizados na caça aos criminosos. O primeiro-ministro de esquerda, Romano Prodi, alucinado, não conseguiu enviar o Exército para a grande cidade do Sul da Itália, porque o comando resistiu à ordem.
Os crimes de sangue, sem falar do surto atual, talvez não sejam mais freqüentes do que nos anos passados, mas a violência cotidiana está em plena ascensão. Com a crise econômico-financeira (mais de uma em cada quatro famílias em Nápoles vive abaixo do nível de pobreza), os jovens desempregados, muitas vezes entupidos de drogas, se entregam à barbárie. “Um jovem lhe enterra um punhal no coração por sua bolsa de mão”, comentou um policial.
Essa violência nem sempre se deve à Camorra. Alguns policiais chegam a lamentar que ela esteja menos presente do que já esteve Chegou-se à situação absurda de as autoridades quase fazerem um apelo para a Camorra recolocar os jovens no bom caminho.
Essas análises devem ser recebidas com prudência. Se é verdade que muitas selvagerias nas ruas não são promovidas pela Camorra, também não há como negar que a campanha de assassinatos dos últimos 10 dias tem tudo a ver com os ódios inexplicáveis que dividem os 200 clãs que compõem a Camorra (contrariamente à Máfia siciliana, bem mais centralizada e, portanto, mais controlada por seus chefes).
A Camorra não vinga apenas em Nápoles ou na Campanha. Faz muito tempo, desde Al Capone e Chicago, antes da guerra, portanto, que os criminosos italianos se tornaram adeptos da globalização. E eles continuam, como qualquer multinacional, petrolífera ou automobilística, se globalizando. A Camorra de Nápoles lançou sua grife na Espanha. Um livro recente de Roberto Saviano nos informa que as gangues da Camorra (chamadas Nuvolatta, Zaza, etc.) legalizam seus ganhos ilícitos, e maciçamente, na espanhola Andaluzia, comprando hotéis, night clubs etc.
A Camorra controla também o mercado de cocaína: as remessas chegam à Espanha de avião vindas da Colômbia, e a Camorra as redistribui então para toda a Europa. Essas revelações do escritor Roberto Saviano devem ser sérias, tanto é que desde o surgimento de seu best-seller, Gomorra, Saviano foi colocado sob proteção policial e vive encerrado em casa. Uma outra organização criminosa viceja não longe de Nápoles, mas um pouco mais ao sul, na Calábria, região árida de uma pobreza assombrosa.
Ali viceja a Ndrangheta que carrega a fama de ser o grupo mais feroz e mais perigoso da Europa. Especialidade da Ndrangheta: a lavagem do dinheiro da droga por meio de compras maciças de bares, hotéis e restaurantes, não na Espanha, mas na Alemanha (Turíngia, Baixa Saxônia e margens do Báltico). A Ndrangheta também se tornou uma investidora na Bolsa de Frankfurt.
Mas, seduzida irresistivelmente pela globalização, a Ndrangheta calabresa lança metástases para o Leste Europeu, avançando sobre a República Checa, a Hungria, a Romênia.
Estado de Minas 15/11/2006

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