Wednesday, February 28, 2007

Brasil é líder mundial no consumo de anfetaminas

Brasil é líder mundial no consumo de anfetaminas
Documento da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes faz alerta sobre uso sem controle de anorexígenos, que é 40% mais alto do que nos Estados Unidos

Lígia Maria Lopes
Com os olhos vermelhos, ela conta o mais íntimo de seus segredos: "Tenho vergonha do meu corpo". Mariana (nome fictício) é uma jovem de 23 anos que há quatro luta contra a balança. Seu duelo com os quilos a mais começou aos 19, quando ingeriu os primeiros anorexígenos — inibidores de apetite. Naquele tempo, fez exames, acompanhamento médico, dieta, exercícios físicos. Em dois meses, o esforço associado aos remédios trouxe resultado: 17 quilos a menos.
Como ocorre com muitos ex-gordinhos, Mariana relaxou. Não fez acompanhamento em consultório. Nem deu continuidade ao esforço diário de escolher alimentos saudáveis, fugir do doce e se exercitar. Pouco tempo depois, as gorduras do passado tornaram-se pesadelo reincidente. Contra o fantasma da auto-rejeição, ela recorreu novamente aos derivados de anfetaminas. Procurou um cirurgião plástico de Taguatinga, famoso pelas fórmulas milagrosas para emagrecer e pela agenda apertadíssima. "Ele me atendeu em 15 minutos. Não pediu exames, mal olhou na minha cara. Quando entrei no consultório, vi que ele já tem um receituário padronizado, em que os nomes dos remédios vêm escritos, e as quantidades, determinadas. Quando ele acha que é o caso de usar uma dosagem maior, faz uma alteração a caneta. É tudo muito simples e ágil. Ninguém perde tempo", conta a jovem.

INDISCRIMINADO
Mariana faz parte de uma estatística alarmante: 13 entre mil brasileiros consomem anorexígenos — contra nove norte-americanos para o mesmo universo. Derivados das anfentaminas, os inibidores de apetite, podem levar o paciente à morte se forem prescritos e tomados de forma indiscriminada. Por causa dos perigos, eles fazem parte da lista de remédios controlados pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), que amanhã anuncia um dado preocupante para o Brasil. Aqui, o consumo per capita de anorexígenos é 40% mais alto do que nos Estados Unidos, onde dois terços da população adulta sofre de obesidade ou está acima do peso. Em termos relativos, a notícia faz do Brasil o primeiro usuário mundial desses remédios, já que apenas 10% da população nacional sofre de obesidade. Apesar do quadro grave, a tendência é de crescimento da curva de consumo.

TENDÊNCIA
De acordo com o relatório da Jife, baseado em dados fornecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a produção de derivados de anfentamina, como femproporex e anfepramona, também cresceu. Além disso, 98,6% do femproporex e 89,5% da anfepramona produzidos no planeta são fabricados e consumidos em território brasileiro. Contra a informação, o alerta: "É necessária a intervenção eficaz por parte das autoridades locais para conseguir reverter essa tendência", diz no documento o presidente da Jife, Phillip Emafo.
Pela terceira vez consecutiva, o país figura no alto da lista de consumo mundial de remédios para emagrecer. Na tentativa de reverter o cenário, a Anvisa, responsável pelo controle e monitoramento desses medicamentos, lançou em dezembro uma consulta pública, em que propôs a mudança das regras de prescrição. Pela nova sugestão, o controle seria feito por meio do receituário amarelo, o qual contém informações como nome do médico, CPF e endereço do paciente, quantidades do princípio ativo presente nos estoques das farmácias brasileiras de manipulação etc.

HORMÔNIOS
As milagrosas pílulas que secaram o corpo de Mariana nada mais são do que a mistura de anfentaminas, tranquilizantes, hormônios sintéticos da tireóide (glândula responsável pela secreção dos hormônios metabólicos, que controlam o peso) e outras plantas de efeitos diuréticos e laxantes. Na maioria dos casos, elas são vendidas ao paciente como fitoterápicos inofensivos. Mariana, por exemplo, conhecia os perigos de usar anorexígenos, mas deixou o receio de lado quando deparou-se com a tranqüilidade do médico. "Ele garantiu que não teria problema e eu acreditei, porque precisava acreditar, iludir-me", diz ela. Em pouco tempo, o corpo denunciou o engano: Mariana apresentava um quadro de agressividade incontrolável, insônia e traços de comportamento maníaco-depressivo. "Foi a pior fase da minha vida", lembra.

O perigo dos mercados não-regulamentados é o tema do primeiro capítulo do Relatório Anual do Jife. Para a junta, o tema deve ser tratado pelas autoridades dos países como prioridade. "Com os mercados não-regulamentados, remédios fora do padrão – e muitas vezes letais – estão sendo vendidos para o consumidor desavisado. Esses mercados são muitas vezes supridos por remédios roubados, produzidos ilegalmente por indústrias farmacêuticas ou por meio de vendas ilegais na internet e distribuídos por correio ou outras formas de envio postal", diz o documento.
Estado de Minas 28/2/2007

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