Um retrato sombrio da juventude deste final dos tempos
O triste retrato de nossa juventude mostra o quanto este mundo caminha para pior. Que o Senhor Jesus possa alcançar a vida de muitos jovens como os descritos nesta série de reportagens, porque o tempo se finda.
" Buscai ao Senhor Jesus enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto".
Isaías 55.6
Atitudes de alguns jovens assustam pais e amedrontam a sociedade
12:40
Jovens das classes média e alta vivem hoje uma crise de família, de identidade, de valores, de ideologia, de fé e de esperança. Mas especialistas apontam caminhos
(Déa Januzzi /Estado de Minas)
(Sandra Kiefer/Estado de Minas)
Com Daniel Camargos
Eles não são melhores nem piores do que os de outras gerações. Mas não é de hoje que os jovens têm assustado os pais, a sociedade e os educadores. Nos últimos 10 anos, a história que mais chocou o país foi a do índio Galdino, queimado vivo por cinco filhos da classe média alta de Brasília (DF). As atrocidades não pararam aí. Nem dá para enumerar os crimes envolvendo jovens privilegiados socialmente, que passaram a ser algemados e trancados dentro de penitenciárias.
Aos 19 anos, Suzane von Richthofen, uma jovem rica, loura, de olhos amendoados, ajudou a planejar o assassinato dos próprios pais. Foi ela mesma que abriu a porta da casa da família, no Brooklin, zona Sul de São Paulo, para que os dois criminosos entrassem e matassem seus pais a pauladas.
Não dá para omitir que jovens bêbados saem pelas ruas e avenidas das grandes cidades dirigindo em alta velocidade e ao encontro da morte. Quando não matam quem ousa passar no seu caminho, naquele momento impróprio.
Sem falar dos pegas. Viciado em velocidade e em carros turbinados com nitrogênio, Vinícius, de 24 anos, confessa que correr dá adrenalina, igual a quem pratica escalada ou descida de rapel em cachoeiras. A diferença é que os esportes radicais não põem a vida dos outros em perigo. Com o ponteiro colado nos 260 km/h , ele já provocou a perda total de seis carros de luxo, incluindo três Volvos e uma BMW. Além de perder nove amigos e 12 conhecidos ao volante.
Muitos pais não conseguem mais pregar os olhos depois que os filhos decidiram tirar a própria vida. O estilista Renato Loureiro, de 62 anos, por exemplo, vive atormentado com o que ocorreu com seu único filho, de 19, que pulou de um prédio em Miami, nos Estados Unidos, para onde embarcou como guia de uma viagem sem volta.
No enterro de um outro jovem, de 25 anos, que se enforcou dentro do próprio quarto, o desespero da mãe era feito de medo, culpa e sentimentos dolorosos. Quase à beira da loucura por ter perdido o seu único filho, por quem fez de tudo, a mãe viu o caixão descer no túmulo frio e solitário, coberto por flores, orações e um amor incondicional, e sob o olhar perdido de uma multidão de amigos, todos jovens. Até hoje, ela chora sem parar, buscando explicações, principalmente depois de saber que o filho tinha a pretensão de tatuar o rosto dela nas costas. "Por quê, por quê?", perguntavam-se mãe, familiares, amigos e conhecidos.
A autodestruição tem várias faces. Uma delas é a anorexia, doença da globalização, que virou pesadelo para mães como a da modelo paulista Ana Carolina Reston, de 21anos. Só depois de morrer de fome – pesando 40 quilos e com 1,74m de altura – ela realizou a façanha de ser capa de revistas nacionais.
No Bairro Jaraguá, na Pampulha, a mãe de R., de 19 anos, não tem mais paz desde que o filho foi pego em flagrante e autuado por tráfico de LSD, junto com o amigo carioca P., que desembarcava na rodoviária de Belo Horizonte, para passar o carnaval no Serro, região Central de Minas. "Por que os filhos não ouvem os pais?", também se pergunta a mãe de R. Ela só terá autorização para ver o filho daqui a 30 dias, pois ele está incomunicável numa cadeia em Belo Horizonte.
Sem ideologia, fé, identidade, limites, modelos a seguir, muitos jovens estão abraçando projetos de morte, com o uso abusivo de drogas e bebidas, além dos pegas, assaltos, tráfico e crimes. A partir de hoje, o Estado de Minas mostra, na série de reportagens Geração aflita, que os próprios jovens se definem como individualistas, pois não têm grandes participações sociais ou interesses políticos, como Anne Paul, uma jovem de 26 anos, que nas últimas eleições anulou o voto: "Não gosto de política", confessa.
Segundo dados da pesquisa "Este jovem brasileiro", idealizada pelo psiquiatra Jairo Bouer, em parceria com o Portal Educacional, prevalece "o interesse próprio, o prazer imediato e o consumismo". Mas ainda há esperança, dizem pais, especialistas e outros jovens que estão trilhando caminhos diferentes.
Juventude faz discurso eticamente correto, mas, na prática, age de forma diferente
(Déa Januzzi /Estado de Minas)
(Sandra Kiefer/Estado de Minas)
Anne Paul freqüenta os bares da região da Savassi, tem 70% do corpo tatuado, se veste de preto dos pés à cabeça e usa vários piercings
O antebraço de Ana Paula Prado é um inferno. Na definição dela é o subsolo do cemitério, onde moram um capeta e seu inseparável tridente, diversos vermes e algumas rosas negras. As rosas ligam o antebraço ao braço e compõem um quadro tenebroso, em que se ressalta uma figura cadavérica. "É uma morta viva cercada por imagens abstratas e que expressam melancolia", explica a moça, de 26 anos. A descrição das tatuagens que se espalham pelo corpo de Ana Paula, ou Anne Paul, como é conhecida, seria suficiente para ocupar páginas e páginas de histórias, garantindo a ela a láurea de a mulher mais tatuada de Minas Gerais, com 70% da pele tomada por figuras negras, roxas e vermelhas. Há oito anos, a filha de pais católicos fervorosos do Bairro Califórnia, na região Noroeste, se empenha em exibir aquilo que ela acredita ser: "Arte, cultura e determinação".
Anne Paul senta-se à mesa do bar, na Rua Antônio de Albuquerque, na noite de chuva intermitente de uma quinta-feira. O lugar ostenta em seu cardápio o slogan de ter "a maior variedade de grelhados da Savassi". O que não se propaga é que ali há também um cenário vasto da "fauna jovem da cidade". Eclético e sedento, pois segundo o proprietário do bar, em uma noite de véspera de feriado, são vendidas entre 12 e 16 caixas de cerveja, algo que vai de 172 a 230 litros de bebida.
Na mesma mesa da turma de Anne Paul, uma moça com o cabelo tingido de ruivo e usando óculos de "a mais inteligente da turma" conta, clamando atenção, a história de seu pai, que já capotou o carro três vezes. Destaca que, em duas oportunidades, seu pai provocou perda total e que em outra acertou um ciclista em Lagoa Santa. "Tirou a foto do carro todo estraçalhado", diz, já rindo, antes de completar: "Meu pai é foda".
É 0h20 de sexta-feira e Anne Paul explica que o símbolo que traz na blusa preta – da mesma cor da saia, bolsa, coturno, sombra nos olhos e tinta do cabelo – é um pentagrama. "Eu me baseio nele para viver. Representa os cinco elementos da Terra e me ajuda a saber o que é certo e errado", comenta. Errado, ela esclarece, são as drogas e o álcool. Mas, enquanto toma um gole de cerveja, acrescenta que faz uso de entorpecentes. Porém, ressalta, com moderação. "A droga está em todo lugar", professa, com o dedo indicador balançando.
Anne mora com os pais e com a filha, de 4 anos. Considera-se jovem, mas acredita que a maior dificuldade de seus iguais é encontrar um emprego. Aos 18, quando fez a primeira tatuagem (uma tribal na nuca, já sobreposta) começou a trabalhar com body peircing, fazendo no corpo dos outros aquilo que mais admira. Além do emprego, arrumou um desgosto profundo para seus pais, que nunca viram "a arte" com olhos bentos.
"Quando tatuei na frente do pescoço o nome da minha filha, ao lado de um demônio, meus pais quase me deserdaram", Anne Paul Ela quer se mostrar forte, mas confessa que, quando tatuou na frente do pescoço o nome da filha, ao lado de um demônio, os pais “quase a deserdaram”. No rosto estão quatro piercings, mais um na língua e outro na gengiva, acima dos dentes da frente. Há também piercings nos dois mamilos e um no clitóris. As unhas são “garras de gata que fazem um estrago” e pintadas com esmalte preto. A predileção pelo preto é justificada porque concentra todas as cores: “É completa”.
POSTURA Heterossexual, não recusa experiências. Na última eleição anulou o voto, pois não tinha opinião formada e também não gosta de política. Considera-se uma católica atéia e do futebol só admira a torcida Galo Metal, do Atlético. Eclética, freqüenta os bares da Savassi e aceita convites para comer uma pizza na região da Lagoa da Pampulha ou interagir em encontros de motoqueiros no Bairro Eldorado, em Contagem. “Só não gosto de música da Bahia”, afirma.
Lembra com saudade dos tempos do Colégio Estadual Central, quando “aprontou demais” e revela que está solteira, depois de ficar “juntada” com o pai de sua filha por três anos. Aos críticos, tem um recado na ponta da língua (e que não tropeça no piercing): “Sou um ser humano como qualquer outro”.
O relógio marca 1h45. Na porta da boate A Obra, que é um pedaço de uma garagem de um edifício da Rua Rio Grande do Norte, no Bairro Funcionários, o movimento é contínuo. É noite do “Rock and Roll Radio Explosion”, com três DJs, que se revezam até o dia clarear. Do outro lado da rua, dois rapazes fumam um cigarro de maconha e o cheiro penetra denso no ar até a porta.
De dentro da boate escapa um rock. É My generation, do The Who. Quem compreende o inglês pode gritar e dançar no porão abafado da boate e sorver a letra escrita por Pete Towshend, há 41 anos: “Por que vocês todos não desaparecem/ E não tentam entender o que nós dizemos/ Eu não estou tentando causar uma grande sensação/ Só estou falando sobre a minha geração”.
Na transição para o mundo adulto, jovens precisam de identidade e projeto de vida
12:56
(Déa Januzzi /Estado de Minas)
(Sandra Kiefer/Estado de Minas)
Jovens sempre vibram, como nos shows do fat boy Slim,uma oportunidade de extravasar emoções
A crueza e imensidão do levantamento sobre suicídio de jovens entre 15 e 24 anos, elaborado pelo Núcleo de Intervenção em Crise e Prevenção do Suicídio, do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de Brasília (UnB), se contrapõem a uma tarefa árdua, pois é praticamente impossível prever o ato. As principais causas da mortalidade são, nesta ordem: acidentes, assassinatos e suicídios, segundo o coordenador dos trabalhos, Marcelo Tavares, doutor em psicologia clínica.
Tavares explica que a maioria das doenças possibilita uma profilaxia, mas que a complexidade de desenvolver um trabalho sobre o tema é grande. "Se sabemos que 38% dos sucidas são depressivos, temos que cuidar deles. Mas também sabemos que 90% dos depressivos não se matam." A depressão, segundo o psicólogo, é um dos principais fatores, mas jovens submissos ou agressivos também requerem cuidados.
O que faz do jovem vítima de si mesmo é a sensação de que não adianta construir. "Ele vive em um meio que prega a gratificação imediata", avalia. Muitos partem para o que ele define como "identidade de aluguel", se valendo de escapes como a internet, que não exigem o uso do nome verdadeiro, do sexo ou da idade. "O jovem procura espaços em que ele não se revela verdadeiramente. Vi na televisão uma moça falando que ficou com um cara na boate e não sabia o nome dele. Quando a amiga perguntou, ela respondeu que não poderia ter essa intimidade", aponta Tavares.
Para o consultor do Instituto Ayrton Senna, o pedagogo mineiro Antônio Carlos Gomes da Costa, os jovens de hoje estão procurando a morte todos os dias, pois estão bebendo muito, consumindo drogas em excesso, participando de pegas. "É uma geração perplexa, percebe-se que os jovens estão devendo algo. A ausência de projetos de vida não deixa apenas um vazio, mas gera um projeto de morte. E aí vem toda essa adrenalina, essa angústia, essa busca do imediato, das sensações, da intensidade", observa o especialista, que foi consultor do Unicef, da ONU, em Genebra (Suíça). Ele cita a socióloga argentina Cláudia Jacinto, que disse que para fazer a transição para o mundo adulto, a juventude precisa construir identidade e projeto. "O jovem precisa saber o que veio fazer no mundo, qual a sua profissão, a pessoa da sua vida, religião, posição política. Quando não fazem essas escolhas fundamentais, eles ficam no limbo."
A angústia da modernidade contribui para mudar os valores dos jovens. "Não há condição de a pessoa pensar quem ela é ou estabelecer relações estáveis. Hoje, as pessoas não vivem para ser, mas para ter. Vivemos em uma sociedade de consumo", reflete.
O dilema, segundo Marcelos Tavares, é que os jovens nem sabem que sofrem com isso. Todos estão angustiados. A diferença é que alguns sabem lidar com esse sentimento, outros não, e há aqueles que não querem nem ouvir falar. "Nossa cultura não ensina a lidar com emoções. Se o menino sente vergonha ou culpa, o pai chama de 'maricas' ou logo diz que ele 'tem tudo para ser feliz'", frisa. Ele lembra que é dever da família escutar aquele que sofre. "Ouvir é levar a sério." Ele compara um jovem com problemas de auto-estima que faz terapia com outro que não recebe ajuda: "É como a rota de um foguete. Corrigi-la em um centésimo de grau é essencial".
Antônio Carlos também ressalta a importância da família. Para ele, o fato de os pais pagarem colégio, inglês, judô, natação e uma série de atividades não significa que eles estejam presentes na vida do filho. "Estar perto não significa estar presente. Essa ausência da presença gera uma solidão exacerbada na vida do jovem", considera. A melhor forma de exercer uma influência construtiva sobre um jovem ainda é dar o exemplo.
Pais estão perplexos diante do vazio interior que leva filhos a atitudes extremas
12:48
(Déa Januzzi /Estado de Minas)
(Sandra Kiefer/Estado de Minas)
"Você sabe como são os filhos. A gente fala, insiste, aconselha, mas eles acabam fazendo do jeito que querem", Renato Loureiro
Um entrou para o quarto da própria casa e se enforcou. A outra jogou-se com o carro zero quilômetro no abismo. O terceiro pulou de cima da ponte, que tem o nome do avô, na Região Metropolitana de BH. Todos jovens, entre 18 e 25 anos, que não conseguiram preservar o maior de todos os bens: a vida. Não encontraram outra saída e deixaram os pais atormentados. A mãe do primeiro não consegue parar de chorar até hoje, um ano e oito meses depois que o filho único tomou a drástica decisão. Não consegue dar entrevistas. Virou uma espécie de morta-viva, que anda de um lado para o outro desde agosto de 2005. Nem pensa em tornar pública a sua dor. A mãe da jovem de 19 anos também não quer falar. Está muda há um ano, desde março de 2006. Ela, o marido e a outra filha, de 23 anos, não compreendem até hoje o que ocorreu, pois tudo parecia estar bem. A terceira mãe vive hoje à base de calmantes. Dorme a tarde toda, para fugir da realidade cruel de que o filho foi embora, para nunca mais voltar, justamente no Dia das Mães, naquele ano de 2005.
Entre os pais que passaram pela dor de perder um filho em circunstâncias trágicas, está o estilista mineiro Renato Loureiro (foto), de 62 anos, o único a se abrir. "Não me interessa saber se ele se jogou ou se caiu. O fato é que o meu filho está morto." Mas a morte de Guilherme, em julho de 2005, aos 19 anos, veio alinhavar a história de uma tragédia pessoal, que começou com a separação conjugal, depois de 22 anos de relacionamento. Um pouco antes de a ex-mulher anunciar que ia sair de casa, Renato acabara de passar por um outro golpe, com o fechamento da confecção de moda e muitos prejuízos.
Ainda sentindo o gosto amargo do divórcio e da crise financeira, pediu ao filho que não fosse para os Estados Unidos. "Mas você sabe como são os filhos. A gente fala, insiste, aconselha, mas eles acabam fazendo do jeito que querem." Guilherme foi, mas ligava quase todos os dias, para dizer que estava tudo bem, que no dia seguinte estaria em Belo Horizonte e que tinha comprado muitos presentes para todos. Já estava à espera dele, quando chegou a notícia da morte. "Foi um soco na boca do estômago, fiquei tonto", desabafa Renato.
Das providências para trazer o corpo de volta, ao enterro e à tentativa de se reerguer no meio do caos, Renato Loureiro ainda teve que ouvir comentários de que o filho pulou porque estava drogado. "Por favor", clama o pai, "diga que não havia droga nenhuma na história do meu filho, que ele teve uma crise em Miami, depois de ver que um dos meninos do grupo, do qual era guia, se perdeu dentro do shopping. Preocupado e se sentindo responsável, saiu à procura do menino, de apenas 14 anos, e também ficou sem rumo e sem comunicação, porque a bateria do walk talk acabou".
A família já viu milhares de vezes o filme gravado pelas câmaras do shopping de Miami, até o momento em que Guilherme sai na direção contrária à entrada do prédio. "Desorientado com o desaparecimento do menino do grupo, ele entrou num prédio em construção, subiu até o alto, onde tirou a camisa, deixou a mochila com tudo, e desceu ao 4º andar, até que anoiteceu. Depois de uma longa espera, os outros guias resolveram retornar ao hotel, pois era o último dia de excursão em Miami. Eles, porém, não se preocuparam tanto, porque Guilherme sabia falar inglês fluentemente, um dos requisitos exigidos pela agência de turismo que o contratou para a excursão."
No dia seguinte, a polícia norte-americana encontrou o corpo de Guilherme, sem concluir a investigação sobre as causas. Para Renato Loureiro, porém, foi uma fatalidade. "Não sei se ele caiu ou se pulou", repete, como se fosse um mantra. "Apenas sei que ele estava fora do seu território, desorientado e sem o apoio da família."
Estilhaços
Quase dois anos depois, Renato Loureiro sente muita saudade do filho, que estava em uma de suas melhores fases. "Guilherme era muito bonito, tinha 1,85m, corpo malhado, fazia administração na PUC Minas e estava empregado." Morador do Bairro de Lourdes, tinha carro e estava sempre rodeado de meninas lindas, além de ser carinhoso. "Éramos superamigos. Quando chegava em casa, ele deitava no meu colo e contava as coisas que tinham acontecido com ele durante o dia."
Como pai, esteve presente em todos os momentos da vida do filho. Seis meses antes da viagem para Miami, "Guilherme ficou sem rumo, desorientado, andando da minha casa para a da mãe, colocando e tirando tudo da mochila. Até que o levei a um psiquiatra, que deu o diagnóstico de que Guilherme era portador de transtorno bipolar, uma doença com episódios de euforia e depressão. Em tratamento, ele estava muito bem medicado e fazendo terapia, mas foi para um país estranho, sem a família, apesar dos avisos. Sem referências, ele pode ter tido uma crise quando saiu procurando o menino que se perdera no shopping".
Renato Loureiro hoje vive sozinho. Recuperou-se da crise financeira, porque aprendeu que um artista tem que criar e não ser empresário. Vai abrir um ateliê e uma loja. "Minha meta é a dedicação exclusiva ao trabalho. Não pensar em mais nada." O Renato Loureiro estilista sobreviveu. Está partindo para um novo tempo, mesmo que estilhaçado. "Sei que posso colar um por um (os pedaços), mas nunca mais ficarei inteiro. Nunca mais serei o mesmo."
Vício
13:06
(Estado de Minas)
Divulgado no fim do mês passado, o "2º Levantamento domiciliar sobre uso de drogas psicotrópicas no Brasil", do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), revela que, entre 2001 e 2005, o número de jovens dependentes entre 18 e 24 anos subiu de 23,7% para 27,4%. O número de adolescentes entre 12 e 17 anos envolvidos com álcool passou de 5,2% para 7% no período. O vício é geral e quando eliminado o corte por faixa etária, considerando os 7.939 entrevistados de 12 a 65 anos, 22,8% usaram drogas – exceto álcool e tabaco – pelo menos uma vez. Em 2001 eram 15,4%. O consumo de maconha subiu de 6,9% para 8,8%, de cocaína de 2,3% para 2,9% e de estimulantes de 1,5% para 3,2% no intervalo de quatro anos.
Alerta
13:05
(Estado de Minas)
• Um em cada três jovens já pensou em se matar
• Um em cada 10 fez uma tentativa
• Dois grupos de suicidas são identificados
• Um, motivado por sofrimento grave, envolvendo depressão. Maioria de mulheres vítimas de violência, abusos físicos ou sexuais
• Outro, por decisões com base em uma dor profunda, de momento. Homens se matam com armas de fogo e tomam decisões poucos minutos antes
Saiba mais
13:02
(Estado de Minas)
1800 a 1900
Com a Revolução Industrial, os jovens deixaram o campo e foram viver próximos uns dos outros nas cidades. Feiras, mercados e festas religiosas passaram a ser pontos de encontro, locais onde os jovens se reuniam e namoravam. Com a industrialização na Inglaterra, formaram-se distritos industriais, como os de Liverpool, onde os Beatles viveriam anos depois. No Brasil, as vilas de São Paulo também nasceram com a Revolução Industrial.
1900 a 1945
As lutas de classe trazem idéias socialistas e com elas as leis que restringem o trabalho até os 15 anos de idade. O tempo livre intensificou o relacionamento entre os pares. O surgimento da iluminação a gás e depois da eletricidade revelou a noite, com suas cores e luzes. O tempo e energia eram gastos à noite e, com isso, surgiram as gangues , a gravidez fora de hora, o uso de drogas e o posicionamento do jovem não mais como solução, mas como problema.
1945 a 1968
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, nasce nos Estados Unidos o movimento beat. A juventude passou a se guiar, no melhor estilo on the road, com o pé na estrada, doses de Jack Daniels e notas de jazz fazendo a cabeça. Os beatniks moldaram as gerações seguintes e assistiram o nascimento do rock and roll, além de darem os primeiros movimentos para a "reforma" sexual que viria. Por tudo isso foram chamados de "geração perdida" .
1968 a 1980
Em maio de 1968, com as manifestações em Paris, a juventude se divide: de um lado, os engajados, que queriam tomar o poder e organizam-se em movimentos estudantis e milícias armadas. Do outro, os hippies, preocupados em revolucionar os costumes, as relações sexuais, a família e experimentar de tudo: do budismo à macrobiótica, passando pela astrologia, naturismo e o desbunde escancarado. Surgem os rebeldes que lutam por uma ideologia
1980 a 2000
A frase de John Lennon "The dream is over" (O sonho acabou), gravada na música God, de 1970, vaticina o contexto social. Ao se referir ao fim dos Beatles, ele retrata com fidelidade a derrocada das duas correntes de mudança. Os militantes perderam os combates, e os hippies foram para as vitrines, gravando músicas e vendo suas batas em shopping. Do fim do sonho vieram inúmeras correntes: hip hop, funk, skinheads e outras tribos, retratando a falta de um projeto.
2000 em diante
O jovem atual é acusado de ser consumista, hedonista, imediatista e relativista, pois não adere a nenhum partido e a nenhuma religião. Mas ele não se deixa manipular pelo estado, partidos políticos nem pelas igrejas. Está meio perdido e se recusa a seguir os mesmos caminhos de gerações passadas. Não encontrou ainda o próprio caminho, não surgiu um líder genial entre eles. Porém, sabe muito bem o que não quer.
Como tudo começou
12:54
(Estado de Minas)
Todos os deuses da mitologia greco-romana são especializados. Jove, Zeus ou Júpiter, o deus dos deuses, porém, é o único generalista, que não se especializou em nada. A acusação de Catão, político romano, era de que os "jovens se julgam parecidos com Jove", pois não têm nenhuma especialidade. Em vez de acharem o termo pejorativo, eles gostaram e começaram a adotar o título de jovem, que é aquele que não fez três escolhas na vida. Não escolheu a profissão e, portanto, está aberto a todas. Não escolheu a pessoa com quem terá filhos, portanto, está livre para ter filhos com todos os homens e mulheres. Não escolheu a causa da sua vida – se será comunista, socialista, capitalista. Juventude é isso. É ser disponível, estar aberto aos ideais políticos, à escolha afetiva e profissional.

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