Um retrato sombrio da juventude deste final dos tempos (parte 2)
Estes jovens sem direção e alienados do único caminho, que é Jesus Cristo, só tem um destino certo: a auto estrada do inferno. Quantos vidas foram ceifadas, tanto fisicamente, quanto espiritualmente. Como dizia Salomão: tudo é vaidade e correr atrás do vento.
Jovens sem direção
Com o velocímetro colado nos 260 km/h, eles transformam as ruas em pistas de corrida
Déa Januzzi, Sandra Kiefer e Daniel Camargos
Déa Januzzi, Sandra Kiefer e Daniel Camargos
Depois de assistir ao filme Velozes e furiosos, os amigos de “Vinícius”, de 24 anos, bateram um racha dentro do estacionamento do BH Shopping. Eles saíram do cinema empolgados com a realidade dos jovens retratados na tela, com seus carrões turbinados, mulheres bonitas e montanhas de dinheiro. “Sou viciado em velocidade. Correr dá adrenalina, igual a quem pratica escalada ou descida de rapel em cachoeiras. A diferença é que os esportes radicais não põem a vida dos outros em perigo”, afirma Vinícius., que já provocou a perda total de seis carros de luxo, incluindo três Volvos e uma BMW. “Os jovens do meu meio social não aceitam andar atrás de ninguém”, admite ele, que já perdeu nove amigos ao volante e 12 conhecidos.
Nada disso, porém, fez o jovem parar de correr. Ele só decidiu poupar a última das suas sete vidas quando o irmão mais novo quase morreu, no ano passado, ao bater de frente com um caminhão, ao sair tonto de uma balada. “Não seria capaz de conviver com a culpa de ser um mau exemplo para o meu irmão, já que eu o levava para a aula acelerando, de manhã bem cedinho”, conta ele, que, mais amadurecido hoje, passou a trabalhar.
Vinícius faz jus ao estereótipo de “filhinho de papai” – mora em apartamento de R$ 1 milhão, no Bairro de Lourdes, usa tênis de R$ 1 mil e nunca deixou de ganhar carros novos do pai, alto empresário mineiro, mesmo depois das batidas em série. Dois de seus amigos andam de Ferrari, com motor nitrado, ou seja, turbinado com nitro, que confere ainda mais potência ao veículo. Gosta de carros desde os 7 anos e aprendeu com o pai os macetes de dirigir em alta velocidade.
As noitadas regadas a adrenalina e álcool já mataram jovens demais no Brasil. Em novembro de 2006, seis adolescentes saíam de uma festa de 15 anos no Mix Garden, em Nova Lima, às 5h30 da manhã, quando o carro rodou na pista e bateu em uma árvore na BR-040. Três jovens entre 16 e 17 anos morreram na hora. Episódio parecido ocorreu em setembro do mesmo ano, no Rio de Janeiro, causando comoção nacional. Cinco jovens de classe média alta perderam a vida ao bater o carro contra uma árvore na Lagoa Rodrigo de Freitas, ao sair de uma boate, por volta das 5h da manhã. Um estudante de 19 anos dirigia o Honda Civic, que ficou completamente destruído, matando a namorada, de 17, e três amigos do casal.
Além de enfiar o pé no acelerador, muitos jovens se tornam algozes de outros jovens, que traçam projetos de vida diferentes, mas têm a infelicidade de cruzar o mesmo caminho. Foi o que ocorreu com a médica Flávia Costa Pereira, então com 26 anos, casamento marcado para daí a quatro meses. Na manhã do domingo de 25 de abril de 1999, ela saiu de casa cedo, antes das 6h, pronta para assumir o plantão no Hospital Odilon Behrens. No cruzamento da Avenida Pedro II, o carro da jovem foi violentamente atingido por uma BMW, conduzida por Thiago Gomide, na época com 23 anos, que voltava de uma festa e, segundo os autos, avançou o sinal vermelho em alta velocidade, e estava bêbado.
Primeiro caso no país de condenação pelo novo Código Brasileiro de Trânsito, Thiago recebeu a pena de três anos de prisão em regime semi-aberto, que foi revertido em trabalhos comunitários em um hospital na região do Barreiro. O próprio código, porém, banaliza a vida, ao caracterizar acidentes de trânsito com vítimas fatais como homicídio culposo (sem intenção de matar). Em outras palavras, equivale a dizer que uma pessoa embriagada e que decide dirigir em alta velocidade não teve a intenção de matar.
“Naquele dia, acabou uma vida. Mas muita coisa boa começou a ser construída por intermédio da Flávia”, diz a pedagoga Maria Beatriz Costa Pereira, mãe da jovem. Quatro semanas depois de perder a filha no acidente de trânsito, ela criou o projeto “Viva e deixe viver”. Seis anos depois, perdeu a conta das escolas onde já deu palestras, alertando sobre o risco de misturar álcool e direção. Nas palestras, ela tenta resgatar a auto-estima dos jovens. “Eles estão perdidos, alienados, egoístas e consumistas. Têm de tudo em termos materiais, mas não são felizes. Os valores estão adormecidos dentro dos jovens; até o mais politizado, que saía para as ruas em passeatas, adormeceu. É preciso que os pais e os professores acordem o quanto antes”, alerta.
HERÓI ÀS AVESSAS
“João” virou Diabinho há cinco anos, quando terminou a noite – pela segunda vez – na delegacia do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Como da primeira vez, o Diabinho estava no banco do carona atentando o amigo motorista a acelerar além do que a lei, o bom senso e amor à vida permitem. Quando o policial apontou o indicador para que ele se levantasse e assinasse o inquérito, o Diabinho ainda estava zonzo com as quatro garrafas de vinho entornadas com o amigo. Aos 14, já roubava o carro do pai: "Esperava ele dormir ou, então, falava que ia lavar o carro e dar uma volta no bairro". Amparado por desculpas do gênero, disputava pequenos rachas, abusava dos cavalos-de-pau, até o dia que estourou um pneu no meio-fio e atiçou a desconfiança paterna. O pai, aliás, está na gênese da paixão de João pelo perigo. Antigo proprietário de uma boate situada em região afamada por disputa de pegas, sempre teve carro com motorzão: “Quando passava lá em frente, ele dava uma acelerada e contava as histórias", lembra, como se justificasse a imprudência no sangue.
A filosofia da velocidade
Vinícius, 24 anos
Infância
Quando eu tinha 7 anos de idade, meu pai assinou para mim a revista “4Rodas”, que eu gostava de folhear. Até os 15 anos, sempre ganhava carros de presente da minha avó, e, aos 12 anos, aprendi a dirigir.
Ídolo
Meu pai e o Schumacher, que, apesar de ter se aposentado, provou que é um grande piloto na última prova dele, em Interlagos.
Ensinamento
Meu pai me ensinou a gostar de carro, a fazer uma curva em alta velocidade sem derrapar. Sei que ele quis me ensinar mais por medida de segurança, para eu não passar aperto. O resto eu fui aprendendo sozinho, olhando o braço dele no volante, o jeito que ele põe o pé no acelerador.
Política
Política e nada é a mesma coisa.
Política e nada é a mesma coisa.
Sonho
Meu sonho é simples – ser feliz e ter amigos. Minha vida tem muita coisa boa, pelo tanto de vezes que eu já pisei na bola.
Status
O que dá status hoje nem é tanto a marca do carro, mas a motorização. Os caras melhoram o veículo com turbinas de caminhão e colocam nitro (óxido nitroso), que aumenta a potência do motor de 20 cavalos para até 200 cavalos. Locais preferidos para os pegas: Seis Pistas, entorno do Mineirão e Via Expressa.
Conselho
Não daria conselho algum para um cara de 17, 18 anos que está começando a correr, porque sei que não adianta. Vou ser voto vencido. Só parei de correr no ano passado, quando o meu irmão mais novo quase morreu ao bater contra um caminhão, a 160 km/h, voltando tonto de uma boate.
Perigo nas pistas
De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2004, 44% dos condutores envolvidos em acidentes com vítimas tinham menos de 29 anos. Em 2005,esse percentual subiu para 46%, sendo que 3,4% tinham menos de 18 anos. A grandiosidade dos números levou o Denatran a eleger o jovem como alvo de suas campanhas educativas. Todos os órgãos que compõem o Sistema Nacional de Trânsito desenvolverão diversas ações educativas, no decorrer deste ano, em especial, durante a Semana Nacional de Trânsito, em setembro.

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