Wednesday, February 28, 2007

Um retrato sombrio da juventude do final dos tempos (parte 3)

GERAÇÃO AFLITA
Mortas de fome Doença da globalização, a anorexia afeta jovens que buscam a aparência perfeita
Déa Januzzi, Sandra Kiefer e Daniel Camargos Maurício Lima/AFP

Vide Bula fez desfile contra a magreza das modelos na São Paulo Fashion Week A adolescente A., de 15 anos, já chegou com o coração quase parando de bater ao Hospital das Clínicas da UFMG, onde funciona há três anos o Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (Niab). Com uma palidez fantasmagórica, pele sobre osso, a jovem apresentava Índice de Massa Corporal (IMC) de 8,6, sendo que o mínimo exigido de pessoas normais é acima de 19 e o nível abaixo de 10 é considerado incompatível com a vida. Sem forças até para andar, A. já não estudava, não saía de casa, não fazia mais nada. Foi imediatamente encaminhada ao Centro de Terapia Intensiva (CTI), onde permaneceu internada por 20 dias, não para ganhar peso, mas apenas para conseguir sobreviver à anorexia. “Ela parecia uma morta-viva, literalmente um cadáver em pé”, afirma a médica Beatriz Espírito Santo, endocrinologista, com especialização em crianças e adolescentes e integrante do Niab. Depois do CTI e de um tratamento emocional intenso, A. venceu a anorexia, estuda e está namorando.

Toda semana, três adolescentes vítimas de anorexia e bulimia dão entrada no Hospital das Clínicas, em graus diferentes de desnutrição e anemia, pedindo socorro. Em três anos, o Niab já atendeu cerca de 300 casos, em sua maioria meninas, menos de 1% de homens. As doenças relacionadas a um desejo mórbido de emagrecimento ainda não chegam a ser caracterizadas como uma epidemia do ponto de vista médico, mas preocupam cada vez mais. O alerta vermelho, entretanto, só foi disparado com a morte da modelo paulista Ana Carolina Reston, de 21, em novembro do ano passado. Só depois de morrer de fome – pesando 40 quilos e com 1,74m de altura – a jovem realizou a façanha de se tornar a garota da capa de várias revistas de circulação nacional.

Em janeiro, a platéia da São Paulo Fashion Week assistiu atônita ao desfile da top model Carol Trentini, que vestia um macacão com estampa de esqueleto. Com o modelito antianorexia, a grife mineira Vide Bula foi a primeira a fazer uma manifestação oficial contra a exigência do peso-pluma das manequins no mundo fashion. Só no Brasil, seis jovens morreram no ano passado, vítimas de anorexia e bulimia.

Preocupada com a saúde das colegas, Gisele Bündchen convocou a imprensa para anunciar que a mãe dela, Vânia Bündchen, nunca a deixou levantar da mesa sem acabar o prato. “Os pais são responsáveis, não a indústria da moda. Todos sabem que a norma na moda é a magreza. Há pessoas que nasceram com os genes certos para essa profissão”, afirmou a diva, 58 quilos, 1,79m. Filha de agricultores pobres, ela se dá ao luxo de comer normalmente e não resiste a um churrasco à moda dos pampas.

O discurso de Gisele não parece ter surgido da boca para fora. No campo psicológico, é sabido que as anoréxicas têm conflitos com os pais e, em geral, são filhas de mulheres autoritárias e com mania de magreza. “A anorexia é uma forma de a adolescente dizer não a uma série de outras coisas. A obsessão pelo corpo magro e o horror de engordar são apenas os sintomas mais visíveis”, afirma o médico Roberto de Assis Ferreira, especialista em medicina do adolescente e um dos fundadores do núcleo. Nos 10 anos em que lida com essas pacientes, o médico nunca conheceu uma anoréxica feliz. “Por mais magras que estejam, elas estão sempre infelizes com o próprio corpo, com a família, com a vida”, compara.

Nem sempre os familiares são capazes de notar os sinais fornecidos pelas meninas, embora, desde cedo, elas demonstrem insatisfação constante com alguma parte do seu corpo, além de alterações emocionais como timidez, agressividade e melancolia. Na maioria das vezes, os pais só percebem a doença quando a perda de peso se torna exagerada ou quando a adolescente se tranca horas no banheiro, em rituais de vômito”, alerta a psiquiatra Gilda Paoliello, professora da residência médica do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg).

Do outro lado da mesma balança, estão as vítimas da bulimia. Assim como as anoréxicas, as bulímicas são capazes de passar 15 dias tomando apenas sucos e sopas insípidas. A diferença é que basta uma briga com o namorado ou uma nota vermelha para a jovem ingerir quantidades imensas de alimentos, em geral doces e sorvetes. Depois, ela se sente culpada, iniciando os rituais de vômitos. Quando esses cessam, recorre a laxantes e diuréticos para limpar tudo.
Apesar dos efeitos destrutivos, no corpo e na alma, as jovens brasileiras ainda preferem “miar” a engordar. Miar significa vomitar, no vocabulário dos mais de 15 blogs e sites criados na internet pelas garotas pró-Ana e pró-Mia, apelidos carinhosos recebidos pela anorexia e bulimia entre as jovens brasileiras. “Ana é um estilo de vida, não uma doença” é a frase de entrada de um dos blogs, em que as garotas trocam confidências sobre o dia em que fraquejaram diante de uma caixa de bombons, ou dão dicas de como enganar as mães para que não percebam que não estão comendo. Em outro, a autora dá conselhos de como ter repulsa à comida: fazer um doce e colocar um monte de sal; mastigar e depois cuspir; cheirar lixo e passear em uma rua cheia de cocô de cachorro e pensar que “se a comida vai se tornar isso, para que comer?”

O que explica a obsessão das jovens pela magreza no estilo Twiggy, a primeira modelo esquelética (cuja tradução do nome para o português é “graveto”) que, ainda nos anos 1960, introduziu o padrão de beleza no mundo da moda? Segundo Gilda, a anorexia é uma doença da globalização, que vende todo um arsenal para a fabricação do corpo perfeito, disseminando a fantasia de que assim a pessoa será mais amada ou poderosa.

Cara do horror
Com sua necessidade extrema de ser reconhecidas e amadas, as anoréxicas acabam provocando repulsa por sua aparência cadavérica. No último grau da anorexia, a mulher deixa de menstruar, podendo se tornar estéril. Também os seios e formas femininas desaparecem e a doença causa queda de cabelos e dentes. “A perseguição excessiva da beleza no Brasil acaba revelando a verdadeira cara do horror”, alerta a psiquiatra Gilda Paoliello. No último estágio da doença, elas sentem tanta fraqueza que não conseguem andar. A pressão arterial das pacientes fica na casa dos 8 por 4 (o normal é 12 por 8) e seu ritmo cardíaco é de 36 batimentos por minuto, quando uma pessoa normal registra entre 60 e 80, em média. O mais impressionante é que, ao medir a temperatura das anoréxicas, o mercúrio do termômetro não sai do lugar. As jovens se tornam esqueletos vivos e, ainda assim, resistem ao tratamento.

Volta por cima
Corpo escultural e sorriso perfeito, a estudante universitária de educação física Talita Bastos, de 19 anos, superou totalmente o episódio vivido na adolescência, quando teve o diagnóstico de anorexia, aos 12. Em menos de três meses, perdeu 22 quilos. A mãe, enfermeira plantonista, só percebeu o problema quando a filha se sentou na cama para trocar o uniforme e não se levantou mais. Desmaiou de fraqueza, após passar três dias sem comer nada. “Primeiro, cortei o jantar. Depois, parei de almoçar e eliminei massas e doces. Por dia, comia um pão francês ou três biscoitos água e sal, um a cada refeição. Em seguida, passei a saltar um dia em jejum e outro comendo. Para me distrair e não lembrar da fome, bebia litros de água e arranjava um monte de coisas para fazer – varria a casa, lavava a louça, ia estudar na casa de uma amiga”, conta. “Podia ter morrido”, admite Talita, que hoje é exemplo de geração saúde, dando aulas em duas academias de ginástica.

Linguagem do corpo
Bailarina mineira exercita mente e músculos, em busca de uma vida saudável e plena

Beto Novaes/EM
Gabriela Junqueira percorreu o mundo com o Grupo Corpo e não abre mão de seus sonhos e dos cuidados com a alimentação, pois nunca fica mais de três horas sem comer
Com os ombros cobertos por esparadrapos, devido aos ensaios do novo espetáculo do Grupo Corpo, ainda sem nome, mas com músicas de Lenine, a bailarina Gabriela Junqueira, de 22 anos, é magérrima: 1,63m de altura para 47 quilos, mantidos com rigorosa disciplina e alimentação orientada pela mãe Valéria, a maior de todas as suas fãs, e por uma nutricionista, que recomenda um mínimo de seis refeições por dia.

Antes de sair para o ensaio da companhia de dança, na Avenida Bandeirantes, na região Centro-Sul de BH, ela toma um copo de vitaminas de frutas. De 9h às 10h30, ela faz aula de balé clássico e no intervalo até o ensaio, que começa às 11h, ela come uma salada verde e uma barrinha de cereais. As três da tarde, quando terminam os ensaios, almoça normalmente, arroz, feijão, verduras e carne branca.

Gabriela cuida muito bem do corpo, que é o seu instrumento de trabalho. “Mais do que artista, o bailarino é um atleta que precisa de força e condicionamento físico”. Como só volta para casa tarde da noite, depois de dar aulas de dança para adolescentes de 13 a 18 anos, na Igreja Batista Central, no Bairro Luxemburgo, Gabriela refaz as energias com um lanche de pão, suco e mais uma barrinha de cereais. Não fica mais de três horas sem comer. “A única vez que eu quase morri de fome, foi na Ásia, em viagem com o grupo para apresentação dos espetáculos Parabelo e Lecuona, porque não gostei da comida deles, mas acabei encontrando um restaurante italiano e, então, me esbaldei.”

Gabriela sempre soube o que quis desde que começou com aulas de balé, aos 8, no Núcleo Artístico, dirigido por Marjorie Quest. “Na época em que todas as minhas amigas estavam tentando vestibular, eu tive que escolher: vestibular ou investir na dança. Optei pela dança, mas sempre sonhando em fazer parte do Grupo Corpo”.

Aos 16 anos já estava pronta, mas não ouviu os conselhos de grandes coreógrafos, para que tentasse audições em companhias de dança nacionais, em São Paulo, Bahia e Goiás. Quanto mais falavam, Gabriela, se agarrava com mais firmeza ao seu sonho: fazer parte do Grupo Corpo. A oportunidade surgiu em 2005. Ela estava com 19 anos, quando fez a audição, e um ano depois integrava a companhia mineira de dança, “graças à mãe e à avó, minhas duas maiores incentivadoras”. Ela, inclusive, diz que a avó, de 77 anos, faz pilates, hidroginástica, musculação, e é apaixonada pelo Corpo desde o espetáculo Maria, Maria.

Com 22 anos, Gabriela conhece boa parte do mundo com a companhia de dança. Já esteve na França, Estados Unidos, Espanha, Canadá, Áustria, Luxemburgo, Alemanha, Islândia, Cingapura, Macau, Hong Kong, Argentina, Uruguai. Assim como as modelos, ela abriu fronteiras com a linguagem do corpo. Gabriela exibe sua forma, nos vários cartazes de estréia nos palcos internacionais, impressos em vários idiomas.

Para ela, a dança é um prazer, mas, em primeiro lugar, está “a minha família, que é um exemplo de união, e também a religião. Batista, Gabriela sempre consulta a bíblia nos momentos de aflição e angústia. Ou conversa com os pais, por telefone, mesmo que esteja do outro lado do mundo. “O que me segura é a minha fé e também a força para enfrentar desafios. Dou o máximo, o melhor de mim em tudo que faço”.

O que mais irrita Gabriela é o egoísmo das pessoas. É por isso que ela sonha em criar uma fundação de artes, com dança, música, para crianças e adolescentes. Conta com a ajuda do namorado Samyr, de 25, cúmplice no sonho e parceiro na vida.

Gabriela confessa que raramente vê televisão, porque não tem muito tempo disponível. Prefiro ler jornais, revistas e livros. No momento, está lendo Liderança corajosa, de Bill Hybes, e acha que: “Beleza é a interior, de caráter; a física é de quem tem saúde e brilho nos olhos”.

"Beleza é a interior, de caráter; a física é de quem tem saúde e brilho nos olhos" - Gabriela Junqueira
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