Friday, March 23, 2007

Uma reflexão sobre a atual sociedade pós-moderna

Nesta reflexão, observa-se algumas características da sociedade deste ínicio de século: embrutecida, sem amor, avarenta, gananciosa, indiferente, alienada, tem o prazer como objetivo final e cada vez mais ignorante. As sagradas escrituras não mentem: vivemos tempos trabalhosos.
Cabaré dos solitários
Os filmes Babel e Pequena Miss Sunshine estimulam a reflexão sobre o labirinto sem saída em que o homem se meteu. Banalização da vida é a praga contemporânea
Inez Lemos
Nenhum ser humano consegue ser feliz sem um “eu te amo”. Isso é básico. Nascemos do amor e dele precisamos para seguir pela vida. É o amor que funda o sujeito. Contudo, percebo que o amor está em extinção, é artigo de alto luxo, a que poucos têm acesso. O filme Babel retrata vários cenários em diferentes lugares; porém, há um que choca, bate fundo, vira realidade que nos machuca e despedaça. Trata-se da jovem que vive a solidão do mundo tecnológico – gigante que nos esmaga por dentro. No Japão das ondas magnéticas, o afeto entre as pessoas não é costume valorizado. Falta ímã, liga, substância que nos aquece, qual incêndio no coração, fogueira em busca de alento. O fogo do amor é mistério que queima de prazer. É difícil viver sem ele. A máquina é fria, não produz sensação, emoção. O progresso congela sentimentos, paralisa o mundo. E o sujeito finge que acredita.
Do Oriente, a jovem pós-moderna chora sua falta de amor. Reivindicar amor é reivindicar humanidade. A protagonista recusa a vida fria e artificial produzida na hipermodernidade. Íntimo – relação que pressupõe interioridade, o adentrar na alma do outro, comunicando-se com algo divino, solene e mágico. No mundo atual, há luz em excesso, clarão que cega e seca. No Japão, com um simples botão, acendem-se luzes, ligam-se e desligam-se aparelhos, mas não se chega à alma – que padece gelada, desprezada.
Quando o mundo vai parar de crescer para fora e começar a crescer para dentro? Estamos parados. E amar é movimento abissal, caminhar rumo ao idílico, onírico, tempo de magia e poesia. Como amar sem tocar essas divindades? O cenário amoroso que nos oferecem é o de encontros relâmpagos, relações que se curto-circuitam em meio a tantas maravilhas eletrônicas. O futuro está enfermo, padece em leito solitário. As imagens detectam o paciente morrendo de falta de amor. Em Babel, o mundo é precipício, abismo cavado pela inteligência internacional, mundial, global. “Meu amor... os carros já não andam. Aviões param no ar... meu amor. Meus olhos se apagaram, o que fazer? Com meus braços, tuas pernas, nossas bocas. O que fazer? Adeus... Adeus... Tudo que era vida foi embora. Eu... Deus...”. Assim Murilo Antunes, poeta e letrista mineiro, de forma pungente e aguda, denuncia a tragédia do amor, quando já não há crença na vida. A dimensão verdadeira da humanidade faliu: amor aos pedaços, peças avulsas e soltas no mercado dos corpos. Vida cáustica, foram seqüestradas as possibilidades de se fazer amor de corpo inteiro
A vida é um grande coração batendo. A viagem que travamos com ele é profunda – conduz-nos às entranhas e lá descobrimos espaços inusitados, sonhos reclusos, magias secretas. Quando abrimos o coração, o chão treme e descobrimos que somos felizes. Felicidade é descobrir, dentro de nós, relíquias a se percorrer e compor poemas. É preparar-se para receber a poesia da vida, que se aproxima tal como o beija-flor nos jardins, cativo das flores. O beija-flor é nobre e sábio, pois não vaga como os pássaros vagabundos, de galho em galho, à espera do que der e vier. O vôo do beija-flor é direcionado, seu percurso tem endereço certo. Ele sabe o que busca, do que precisa e o que deseja. Desnorteante é vagar sem eixo, sem norte, sem saber onde é a casa da felicidade, lugar escolhido pelo coração para descansar – paragem que cura da secura do mundo.
Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente, não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-las saindo de Lisboa até Benfica... porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma”. Fernando Pessoa critica a obsessão de viajar por viajar. Para cruzar mares, temos de, primeiro, cruzar nossa monotonia. A vida é um tédio, quando não enfrentamos os monstros que nos apavoram. Viajar requer paz interior. Sem abrir espaço dentro de nós, não navegamos rios, não apreciamos cidades. Escalar belas montanhas? Só com o coração em júbilo. O tédio é para ser enfrentado, ultrapassado – sem vencê-lo, estaremos sempre empacotados, emparedados. Aliás, a melhor forma de não viajar é entrar num pacote turístico. As agências de viagens, em consonância com os empresários do tédio, nos oferecem um enlatado de lugares. Você compra a promessa de viagem e realiza o plano de metas, programa intensivo de visitas. Passa por lugares, sem que eles passem por você. Emoção planejada é fingimento, engodo, vida tediosa, tendenciosa. Quem segue as tendências do mundo externo vaga sozinho e fora do eixo, distante do néctar divino. Divino é viver com a alma embevecida da dor ínfima, ferrugem que corrói lentamente de prazer.
Quão irritante é assistir à destruição do lado emocionante da vida por empresários que tudo institucionalizam e comercializam. Viver se tornou mero cerimonial, quando tudo tem de ser impecável. Vida sem pecado, fracassos e derrotas. A vida que os Estados Unidos querem nos impor goela abaixo – vencer ou vencer, concorrer, correr para o primeiro lugar, conquistar. O filme A pequena Miss Sunshine expõe o ridículo norte-americano. Parece que a vida forjada no progresso nos deixou retardados. Agimos como robôs. Viajamos para onde não desejamos, ingerimos todas as gorduras que nos empurram e, depois, nos penitenciamos em cima de esteiras, verdadeiros idiotas correndo parados. Competimos obcecados e enlouquecidos por prêmios. Amor e emoção, só no cabaré dos solitários, demissionários dessa vida otária, gente de sangue frio. Viver é sonhar diante do espelho da alma. Pobres almas magnéticas, que viajam em chips e navegam conectadas, programadas.
Miss Sunshine mostra a transformação do trágico em cômico – a cena da família à mesa, a comida comprada que vem embalada em baldes plásticos. O cardápio do dia compõe-se de pedaços de frango, devorados inteiros, com as mãos. A América esparrama estupidez pelo mundo, ao transformar o ato de se alimentar em banalidade. Sem o ritual de sentar à mesa bem-posta, é como ir ao banheiro aliviar-se. Instintos de preservação – comer, lutar, vencer. Banalizar a vida, isso o capitalismo fez com mestria. A vida que restou é a que engolimos nas esquinas – especiarias sem sabor, temperos sem cheiros. A família, hoje, é um amontoado de gente que demanda enlatados. Consomem-se sonhos cifrados e projetados nos escritórios de vidro – janelas que se abrem para o céu nublado, cinzento e poluído, fagulhas de cimento em almas de ferro.
O cenário a que os dois filmes nos remetem é labirinto sem saída. A salvação deve vir de nós, ao recusarmos caminhos que nos enredam e paralisam. Jorge Luis Borges, em Elogio da sombra, nos aponta um lugar: “Não haverá nunca uma porta. Estás dentro. E o alcacér abarca o universo. E não tem nem anverso nem reverso. Nem externo muro nem secreto centro”. Tudo de que precisamos para uma vida saudável, emocionante, é enfrentar as bifurcações dos caminhos que travamos a partir de nossas entranhas, vísceras que desconfortam – labirinto a ser percorrido, real a ser bordejado.
A vida é para ser bordada, ponto a ponto. Destino traçado por fadas que idealizamos, que nos orientam e nos indicam os jardins de beija-flores. Refeição à mesa, com a família reunida. Juntos, comem o sofrer e saboreiam o saber. Nas metrópoles, a vida de famílias que abandonaram seus feudos sentimentais e migram para lugares sem memória, conforto sem esperança, é rala, fria e frágil. A emoção, hoje, é participar do Big brother, eliminar o “babaca da vez”. Triste é a juventude acreditar que a vida é essa obscenidade sem sabor, pecado sem dor, desistindo de encontrar o néctar dos deuses, no jardim da existência. Essa vida burguesa, dissoluta e sem sentido já havia sido severamente criticada por Salinger em seu ontológico O apanhador no campo do centeio: “Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina... Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro”. Salinger realizou um pouco do desejo de se ausentar da hipocrisia americana, tal como aspirava seu personagem de O apanhador. Retirou-se para uma vida despojada e marginal, ao que parece em uma cabana no Maine, onde não havia água encanada e luz elétrica. Distante da frieza do progresso e longe do alcacér, abarcou o universo, ao escrever e revelar ao mundo sabedoria. Soube viver a emoção de saber de si.
Inez Lemos é psicanalista. E-mail: mils@gold.com.br
Estado de Minas 17/3/2007

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