Monday, April 23, 2007

Tempo de valores distorcidos

VERA CHAVES PINHEIRO - Tempo de valores distorcidos

Na Páscoa meus netos viajaram e deixaram um sério encargo para mim: cuidar de Lilá a cadelinha de estimação (o que uma avó não faz por seus netos!). Assim quase na véspera da chegada deles levei Lilá a um pet-shop. Pedi tratamento completo, xampu, tosa etc.
Fui magnificamente recebida por dois solícitos funcionários. Ofereceram-me uma cadeira, enquanto anotavam os dados da cadela. Fiquei de retornar uma hora depois, depois de minha fisioterapia. Na hora marcada, avisaram que ela ainda não estava pronta, porém eu poderia ir para casa que eles a levariam em transporte próprio. Foi o que aconteceu; quarenta minutos depois recebi Lilá: linda, perfumada com duas flores na cabeça.
Minha mãe está bem velhinha e necessitando de cuidados especiais. Ela já não caminha, sofre de dores musculares e de uma série de debilidades naturais da idade. Num domingo, folga da enfermeira, estamos as duas em casa sozinhas, quando ela começou a passar mal.
Sentia náuseas e chegou a desmaiar. Eu teria que tomar as providências, então fiquei bem calma. Chamei o número da emergência de nosso plano de saúde. Depois de ligar diversas vezes, digitar o número do cartão e falar com cinco atendentes, consegui falar com uma médica: ¨Pelo amor de Deus¨ supliquei. ¨Mande alguém aqui!¨
A senhora está muito nervosa, foi o comentário. Claro, respondi, ninguém liga para a emergência tranqüilo. Meia hora depois, chegou o socorro. Examinaram minha mãe e constataram que a pressão estava muito alta, elaparecia desidratada. Fomos na ambulância para um centro de atendimento.
Minha mãe deitada na maca e eu apoiada em um andador (tenho severa artrose nos joelhos). Lá, tive de preencher uma ficha ali mesmo, em pé, no balcão da entrada. Depois que minha mãe foi medicada e enquanto fazia os exames, pedi para telefonar para minha filha. Tem um orelhão logo ali, na rua, indicou o funcionário.
Depois de duas horas, constatou-se que minha mãe tinha uma infecção urinária. O médico receitou um antibiótico e, em seguida, deu alta. Pedi, então, para me levarem para casa. Não temos transporte de volta,comunicou o funcionário. Meu plano prevê até helicóptero. Perguntei, então, o que fazer: ¨Tomem um táxi¨ foi a resposta. Pedi que contratassem uma ambulância particular.
Dessa vez, eu me recusei a ir até o orelhão. Eles fizeram a ligação bem contrariados. Saí do centro de atendimento, jurando nunca mais voltar lá. Pena que não aceitem velhinhas no pet-shop.
VERA CHAVES PINHEIRO
Professora aposentada
Diário da Tarde 23/4/2007

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