Wednesday, May 09, 2007

Análise: Tristeza Corporativa

O descontentamento e a insatisfação da humanidade está muito evidente nestes tempos finais. Que Cristo Jesus, o caminho, a verdade e a vida seja a nossa alegria e satisfação.
Tristeza corporativa
O capitalismo selvagem em que vivemos está gerando um processo produtivo desumano e doentio
Deusdedith Aquino, Jornalista


Pesquisa realizada pela psicóloga Betânia Tanure, entrevistando, pessoalmente, 263 presidentes, vice-presidentes e diretores de 350 empresas no país, além de outros 1 mil executivos, por questionário, mostrou um quadro alarmante de infelicidade no topo das corporações. Qualificado pela revista Época Negócios (maio/2007) como “o mais completo estudo sobre o mundo corporativo no Brasil”, o trabalho levou dois anos de levantamentos, análises e conclusões. Betânia Tanure é uma referência internacional em cultura empresarial. Professora associada da Fundação Dom Cabral, mestre convidada do Instituto Internacional de Administração e Negócios (Insead, França) e da London Business School (Inglaterra), autora de sete livros, a própria pesquisadora ficou impressionada com o que encontrou.
Do total de executivos, 84% são infelizes no trabalho, 76% acessam e-mail profissional fora do horário de serviço, 58% acham que os cônjuges estão descontentes com o ritmo excessivo de trabalho deles, 55% vivenciam uma mudança radical no campo profissional, 54% estão insatisfeitos, com o tempo dedicado à vida pessoal e 35% apontam problemas com o chefe. Para chegar a esse resultado, de forma profunda, a professora chefiou uma equipe que utilizou dois tipos de avaliação. O Índice Global de Satisfação verifica horas trabalhadas, grau de satisfação com chefes e subordinados, níveis de cobrança por resultados e sistema de recompensa. Já o Índice Global de Sensações e Atitudes registra o grau de efeitos somáticos, como ansiedade, insônia, problemas familiares, desânimo, consumo de bebidas alcoólicas e outros. Cruzados esses dados, são considerados infelizes aqueles em que os indicadores negativos ultrapassam os positivos. Diante desse quadro, como os profissionais da alta cúpula das empresas estão conseguindo sobreviver? A resposta é da própria professora Betânia Tanure: “Eles colocam um véu em seus problemas e se recusam a olhar para suas infelicidades”.
A pesquisa certamente será debatida em universidades e corporações, aqui e no exterior. É uma preciosidade, que mostra como as organizações, de modo geral, se tornaram tóxicas para os seres humanos. Presos numa cadeia de falta de escolhas, e também premidos por sua própria ambição, pela pressão financeira da família e, de certa forma, pelo gosto da competição, presidentes e dirigentes são a mortadela do sanduíche. Sobre eles, acionistas cada vez mais ávidos por resultados na “linha final dos balanços” ou nas cotações em bolsas de valores. Embaixo, clientes cada vez mais exigentes, levando a uma competição feroz. Também no recheio há funcionários, fornecedores, governos etc. Altos executivos contratados – em intensidade maior do que dirigentes-proprietários das empresas, porque esses têm mais liberdade de comando – estão intrincados na teia dos stakeholders (todo o público que o cerca).
Esse movimento tem algumas origens que podem ser identificadas. A introdução dos programas de qualidade total, na década de 1980, que, em busca de aumento da produtividade e copiando modelos da austeridade japonesa, geraram arrocho nas linhas de produção. Nessa fase, os atingidos foram os “operários do chão de fábrica”, enquadrados em normas para elevar a produção por hora/homem/máquina. Era o primeiro aceno de ajuste à competição internacional que crescia, vinda da Ásia. Quem não se lembra dos Tigres Asiáticos? Os efeitos foram bons para as empresas, cujo ajuste permitiu maior capacidade de competir com o exterior. Mas a combinação de consumidores exigentes e tecnologia crescente bateu de frente com milhões de trabalhadores que perderam seus empregos pelo mundo afora ou foram forçados a mudanças de métodos em suas vidas.
Uso intensivo de informática e telecomunicações, o barateamento dos transportes e o alargamento dos mercados, que permitiram a globalização, a partir dos anos 1990, fecharam o circo. Em busca da eficiência competitiva a qualquer custo, surgiram os famigerados programas de downsizing (redução brusca de estruturas), a “reengenharia” (mudança de processos, com “enxugamento” na quantidade de trabalhadores) e outras novidades lançadas por gurus. Para as pessoas, os impactos nos últimos 25 anos foram terríveis e, vendo esse trajeto, não é difícil compreender por que a pesquisa da professora Tanure apresenta tanta tristeza corporativa. Ela mesma constata: “Legiões de profissionais foram demitidos. Quem antes fazia apenas seu trabalho passou a realizar o de três. Quem chefiava um departamento assumiu o comando de vários. Os que sobraram tiveram de provar sua competência de maneira obsessiva. O acirramento da competição globalizada trouxe uma virada no mundo das organizações”.
Quem está no jogo, por gosto, ambição ou necessidade, atribui tudo isso às chamadas novas realidades do mercado. Mas é preciso acrescentar um ponto crucial: o capitalismo selvagem em que vivemos está gerando um processo produtivo desumano e doentio.
Estado de Minas 9/4/2007

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