Reflexão:Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira da Costa: Gangues da Savassi
"A família moderna de classe média e alta democratiza o relacionamento com os filhos, tratando-os mais com superproteção do que com interdição educativa"
reginacosta@uaivip.com.br
"A família moderna de classe média e alta democratiza o relacionamento com os filhos, tratando-os mais com superproteção do que com interdição educativa"
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A série de reportagens publicadas no Estado de Minas pela jornalista Ingrid Furtado, desde o início de maio, relata a ação de gangues de jovens de classe média, assaltantes, traficantes e todos os tipos de excluídos que aterrorizam a região da Savassi, em plena na madrugada, assustando população, famílias, lojistas e a moçada que circula por ali.
São atos de vandalismo e pancadaria praticados por jovens bem-vestidos, estudantes de colégios particulares que, em grupo, ganham coragem para cair na barbárie. Flagrados cometendo desacatos às leis e autoridades, falam com tranqüilidade sobre suas atitudes, sem noção da gravidade da situação. Além dos marginais habituais, temos agora outro problema. Ato de coragem e pura adrenalina, explica um jovem, invadir território estabelecido por outra gangue é iniciar um conflito.
Lembrei-me daquela ocasião, na última Copa do Mundo, quando adolescentes atearam fogo no quiosque da Praça JK, desceram a Rua Pium-í aprontando, tirando a roupa, subindo no capô dos carros. Os pais, em pânico, não sabem o que fazer com os filhos, todos entre 13 e 20 anos, que, sem qualquer causa, se concentram em bandos sob os nomes Elite Perdida, Bonde do Arrastão, Vândalos da Madrugada, Banca Nervosa. São quase 30 gangues.
Temos discutido, na Universidade Newton Paiva, os sintomas atuais em adolescentes, demonstrados muito mais em atos que gritam por uma intervenção da lei, um chamado que restabeleça autoridades consistentes com capacidade para impedir a conduta desregrada. Estudamos os procedimentos dos psicólogos que atuam nos tribunais e varas de infância e juventude, bem como no governo do Estado, prefeitura e ONGs, entre outras instituições de atenção à infância e juventude.
São muitos os avanços dos programas de tratamento e acompanhamento, como medidas socioprotetoras e liberdade assistida, até a restrição da liberdade em centros de internação – que, evidentemente, são o último recurso. Muitas pessoas cometem o equívoco de pensar que os adolescentes, desde a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), são protegidos em relação à lei, que é comum a todos. Isso não é verdade.
A juíza Valéria da Silva Rodrigues e a psicanalista Cristina Pinelli Nogueira, do Tribunal da Infância e Juventude, nos fizeram uma visita, a convite da professora Inês Seabra, e esclareceram esses aspectos legais, respondendo a muitas questões dos estudantes e professores. Houve grande interesse nesse encontro e ficou claro que a pulverização de autoridades competentes e confiáveis, tanto na esfera pública quanto privada, e as famílias cada vez mais mononucleares (com ausência do pai em maior escala que da mãe) tornam mais difícil a assimilação e introjeção da lei pelos filhos.
A família moderna de classe média e alta democratiza o relacionamento com os filhos, tratando-os mais com superproteção do que com interdição educativa, mais com excesso do que com falta e falha na aplicação da noção de autoridade. Os pais ficam em posição de amigos, ou pais inseguros que esperam que os filhos participem das decisões. Esquecem-se de que nem sempre eles têm vivência e condições para tal. Como não são tolhidos, passam a ser arrogantes e desafiadores. Lemos isso como chamado à lei para responder à pergunta: até onde posso ir? Não vêem que estou me queimando?
Esses sintomas acompanham o imperativo da contemporaneidade, que incentiva o fazer mais do que o sofrer, o agir mais que o pensar, a busca de prazer e da felicidade como os valores maiores, independentemente de como se possa alcançá-los. Se, antes, os sintomas eram conflitos internos que produziam sofrimento, obrigando o sujeito a buscar ajuda, agora encontramos os que correspondem à vida corrida de muito trabalho, consumo, urgência, na qual acabamos nos consumindo como nunca.
Assim, os sintomas apresentados pelos jovens e adolescentes, por meio de condutas divergentes das habituais, são percebidos pelos pais atentos, mas nem todos querem vê-los. Lembrem-se daquele programa de televisão que sempre repetia o jargão: tem pai que é cego...
Nós, que atendemos esses garotos, temos tentado fazer intervenções que atinjam os pais, no sentido de reforçar uma lei e interdição imposta com amor, para que, mais tarde, os filhos não venham a apanhar do mundo porque não aprenderam a lidar com as frustrações dentro de casa.
Estado de Minas 03/06/2007

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