Sunday, October 28, 2007

Reflexão : como o consumismo dos dias atuais não passa de um simulacro vazio

Educação e mídia
O ter é valorizado como ideal ao contrário de privilegiar os laços, a solidariedade, a coletividade. De fato, o mercado trabalha para si próprio...
Regina Teixeira da Costa
reginacosta@uaivip.com.br

“Mídia: indicada para crianças e adolescentes?” Este foi o tema do 3° Encontro Internacional de Mídia, organizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio das ações da Multirio e do Centro de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes (Rio Mídia). O encontro, realizado entre os dias 16 e 19, foi sediado no belíssimo Planetário da Gávea, onde também aconteceu o 1° Colóquio Mídia e Agenda Social: Desafios para a formação de estudantes e profissionais de comunicação, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

A presidente da Multirio e coordenadora geral do encontro, professora Regina de Assis, esclarece que o objetivo do evento era “não só discutir questões relativas à pesquisa, criação, produção, fomento e distribuição de produtos de mídia, mas avançar na discussão sobre o direito que têm crianças, adolescentes, suas famílias e educadores de opinar sobre a qualidade do que é veiculado pela TV, pelo rádio, pela publicidade, sobretudo, em horário nobre”.

O que pretendido, de fato, é a responsabilização dos profissionais da mídia pelo que se veicula e pelos valores transmitidos, principalmente na televisão, já que sua influência e penetração são enormes e, muitas vezes, substituem orientações que faltam a muitas famílias. A dificuldade consiste em esclarecer quais são os valores assimilados como ideais, já que o apelo televisivo enfatiza o luxo, o sucesso, a sensualidade, a violência, o consumismo e, portanto, compõem a constituição da criança e futuro adolescente.

O consumismo tem como lógica de base o discurso do capitalismo, cujo suporte é a posse de bens apresentados como objetos de desejo, que se projetam como sendo aquilo que nos falta para sermos felizes. De fato, nada têm a ver com o desejo, ao contrário são simulacros que encobrem ilusoriamente a incompletude humana. O ter é valorizado como ideal ao contrário de privilegiar os laços, a solidariedade, a coletividade. De fato, o mercado trabalha para si próprio beneficiando poucos, consumindo muitos.

A mídia, por sua vez, trabalha sustentando essa mesma lógica, apresentando valores ideais nem sempre adequados para uma comunidade que se preocupa com seus cidadãos. Demonstra-se, principalmente pela qualidade de programação de muitos dos principais canais, a pouca preocupação com os efeitos perversos daquilo que vem bombardeando os lares brasileiros. E não só são transmitidos pela TV, mas por meio de seus múltiplos recursos – a propaganda, o rádio, os jornais, outdoors, folders enviados pelo correio, internet, jogos eletrônicos etc.

O que se vê é um espetacular mundo de violência, tragédias em contraposição com luxuosos produtos e apelo à beleza, produtos consumíveis, que afinal nos consomem. Felizmente, embora sejam minoria, alguns canais de TV e mídia educativos são direcionados para crianças e jovens e parecem ser uma indicação de que a qualidade é considerada e pode ganhar espaço. Não podemos esquecer do lado positivo dos canais de comunicação e julgar todas as mídias como iguais. Estamos num jornal.

A oportunidade da interlocução sempre é uma prática louvável e necessária dada a velocidade dos milhares de acontecimentos de que temos notícias na atualidade, e quando os costumes e a intimidade assumem novas formas. Pais e filhos, vivendo novas formas de família, estimulados pela mídia se deixam muitas vezes encantar pelas vozes do mercado, omitindo-se de priorizar o valor da convivência, da presença como maior que o presente, dos limites que acalmam mais que os excessos que excitam e geram angústia.

Se desejo é sinônimo da falta, nada há a desejar na sociedade do excesso. Tédio. Sem desejo, nosso guia, não sabemos quem somos e nem para onde vamos. Resta-nos a saída imaginária da identificação com os ídolos do nosso tempo.

O que não se pode calar é o fato de que todo filho gosta de se sentir cuidado pelos pais. Necessita do limite, de alguém que está atento, de saber-se incluído no desejo de um outro e isso lhe confere dignidade. Alguns desejos trazem prejuízos e por isso devem entrar para a lista dos impossíveis. Educar com amor é dar o possível e nem que queiramos podemos dar tudo. Ao contrário do que alguns pais imaginam, privar e frustrar não é desamor; os filhos sentem-se gratos com um não apropriado. Portanto, talvez seja um ato educativo cuidar melhor e desde cedo do que a garotada consome principalmente pela TV.

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